Um banquinho, um violão, os amigos ao redor a escutar sua canção. Este é o cenário ideal para muitos adolescentes que gostam de passar a noite curtindo um som com a galera. Ou melhor: um som feito pela própria galera, com direito a escolher até a ordem do repertório. Mas, para isso, é preciso que um amigo, pelo menos um, saiba tocar os acordes básicos do violão. É aí que todo cenário perfeito cai por terra. Até que chega a hora de algum corajoso que adora música pegar um violão e começar a dedilhar. "É comprar uma revistinha e aprender de ouvido mesmo", lembrou Marcel Gussoni, que fez exatamente isso durante sua adolescência.
Mas é bom os jovens ouvirem o conselho de quem é do ramo. É preciso muito mais que vontade de aprender um instrumento. Porque, apesar de ser o violão mais barato, mais fácil de se carregar pra onde a turma for e mais tranqüilo de conseguir partituras, é também o mais fácil de se aprender errado. E por isso os estudos são fundamentais para quem não quer pagar o mico de esquecer a música na metade. "Porque à primeira vista parece muito fácil, você aprende algumas posições e já quer inventar. Mas à medida que estuda a fundo percebe o quanto é um instrumento difícil de ser dominado", esclareceu o professor Ronan Silva.
Calma, não queremos assustar aqueles que sempre sonharam em tocar um instrumento, mas que nunca tiveram oportunidade quando criança e se sentem envergonhados de nada saber quando adultos. Mas, sim, ajudar aqueles que querem aprender a tocar o instrumento. Mesmo porque, muitas pessoas não querem ser um profissional e tocar em bares e casas noturnas, apenas se divertir com os amigos. Ou até mesmo usar a música para se desligar um pouco do trabalho e tirar o estresse dos problemas enfrentados durante todo o dia. "O problema é que, sozinho ou com professor não capacitado, o aluno pode se frustrar com um método que não consiga ensinar da melhor maneira. Quando há alguém que oriente, a aprendizagem é rápida. Na primeira aula é possível tocar uma música simples. E, em três meses, no mínimo o aluno toca 20 músicas", explicou o professor Alexandre Oreste.
MANOEL SERAFIM![]() Ivan Keocheguerian, teve a ajuda do pai mas aprendeu o instrumento com um professor |
Quanto mais idade, mais vontade de aprender
MURIEL GOMES![]() Divino Alves aprimorou suas composições com os estudos |
Maria das Graças Oliveira Costa é a prova concreta de que idade não é problema para quem quer aprender. Aos 61 anos, teve a coragem de correr atrás da vontade que tinha desde criança: a de tocar um instrumento. Se não teve oportunidade na infância, foi mãe muito cedo e teve que cuidar de seis filhos, agora com todos já casados era a hora ideal para recomeçar. "Até porque a casa estava muito vazia, me sentia sozinha. Até que ganhei o violão do meu filho. Fui procurar nas coisas velhas um livrinho de partituras e parti para uma aula", lembrou Maria das Graças.
O início foi mais complicado, afinal a agilidade de uma pessoa mais velha não é a mesma da adolescência. Muito menos a coordenação motora. Mas com o tempo foi aprendendo os acordes, na musicalização passou à frente dos mais jovens e agora os netos são fissurados para ouvir as cantigas infantis pelos sons da vovó. E os filhos, são só orgulho. "Eu amo tocar, adoro, sou apaixonada mesmo. Agora sou uma pessoa feliz. Se me sinto sozinha, é só pegar meu violão que esqueço que os problemas existem", contou. Agora, o desafio é aprender acordeom, o instrumento que mais gosta. "É só comprar um que vou conseguir", aposta.
Sertaneja
Até para aqueles que já tocam durante anos seguidos de ouvido as aulas de violão são aproveitáveis. Só com os estudos que o colega de Maria das Graças no Conservatório Estadual de Música, Divino Antônio Alves, conseguiu aprimorar suas tão queridas composições sertanejas. Se os acordes saíam forçados quando jovem, depois de 10 anos de aulas, os arranjos que fazem para a música caipira fluem mais naturalmente. "O idoso não pode ficar quieto em casa não. Moro sozinho e logo que fiz 60 anos decidi que ia aprender violão clássico. Ah, mas foi a melhor coisa que me aconteceu", disse Divino Alves. Pode fazer as contas: no alto de seus 70 anos de idade, nos ensina como tudo é possível se houver vontade. "Aconselho todo mundo a estudar música, é bom até para a saúde, não te deixa ficar triste. Estes dias eu estava doente, não pude ir, mas estou com uma saudade danada", acrescentou.
O prazer de tocar garantiu a formação de mais um profissional
Se você gosta de tocar violão, mas não sabe nada de teoria, se você sempre leva seu violão para viagens e festas, mas mal consegue terminar de tocar uma música, se você só sabe alguns acordes básicos e toca e canta todo desafinado as músicas de sempre, então você tem o perfil de mais de 29 mil membros do Orkut que adoram dedilhar músicas, mas só para fazer barulho. A comunidade "Toco violão, mas meia boca" pode parecer um escracho, mas é uma boa descrição dos amantes do violão para diversão. "Brinco que sou um violeiro de churrasco. Vou lá, toco meia dúzia de músicas e vou embora", brincou o publicitário Rogério Passos.
Mas há os casos em que a diversão se torna algo mais sério. Mesmo para quem não quer se tornar profissional. Foi com o violão que aprendeu com o pai aos 9 anos de idade que Ivan Keocheguerian Filho ? pai do adolescente Ivan ? conseguiu pagar as mensalidades da faculdade de Odontologia. Tocava de terça-feira a domingo em bares de Uberaba, o que lhe valeu uma profissão. Agora só dedilha para os amigos. "Além de ser uma terapia, tocar mexe com a nossa emoção, as pessoas se divertem, se soltam cantando, aumenta o ciclo de amizades. Por isso nunca parei nem pretendo parar de tocar", finalizou.