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Beleza que incomoda
Mulheres bonitas relatam constrangimentos ligados à imagem
Atualizada: 07/07/2009 - 17h07min

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A gata mais cobiçada do colégio; o rostinho delicado que se destaca na multidão; o corpão torneado literalmente capaz de parar o trânsito; aqueles olhos cativantes que derrubariam qualquer marmanjo, se tornam imbatíveis quando a dona de tantos atributos, além de tudo, é uma mulher inteligente e bem-sucedida. Mas, ao invés destas qualidades encherem suas respectivas donas de orgulho, em diversas situações, tantos predicados trazem sofrimento.

Pode parecer difícil, mas a beleza tem sim seus momentos difíceis e percalços. A inveja naturalmente despertada em outras mulheres; a competitividade que às vezes beira o ataque pessoal; os comentários maldosos e, é claro, a "dor de cotovelo" são algumas das pedras no caminho das beldades.

Um dos problemas, segundo elas, é o primeiro impacto. Antes de as conhecerem, as outras mulheres torcem os narizes, os marmanjos organizam a torcida e, desta forma, está montado o campo de batalha. Sem querer, elas atraem para si a predileção de muitos, o ódio de outras e, naturalmente, precisam de muita diplomacia e jogo de cintura para conviver com o assédio.

A vendedora Elisângela Narcon, por exemplo, já ouviu algumas "pérolas". Ao ser apresentada à nova equipe de trabalho, de início veio o elogio: "mais uma mulher bonita conosco", disse o chefe entusiasmado. Rapidamente, a resposta da colega o desanimou: "mas também com esse assanhamento todo!". Detalhe: a bela morena de olhos verdes entrou monossilábica e saiu calada da apresentação, como tantas outras pessoas no primeiro dia de trabalho e, sem querer, se transformou no centro de uma discussão.

Situações assim, entretanto, são tiradas de letra por Elisângela acostumada com as glórias e as dificuldades da beleza, desde a época em que era uma estudante colegial. De acordo com Elis, como é chamada pelos mais próximos, seria uma relação perfeita com os homens, não fosse os mais exaltados que, em muitas situações, perdem a noção de respeito ao espaço alheio. "Eu trabalhei como promotora de vendas. Os representantes comerciais confundiam as coisas, me olhavam com outros olhos e isso me deixava muito constrangida", conta.

"Lá vem as ?patricinhas? das faculdades particulares". A alfineta foi contra a professora universitária e nutricionista Juliana Hubaide Carneiro, graduada pela Universidade Federal de Goiás (UFG). A afirmação veio de uma colega do curso de pós-graduação. Além deste momento, Juliana viveu outras situações difíceis, principalmente pelo fato de ser bonita. "Dei entrevista na TV e um homem desconhecido ficava ligando no meu celular. As meninas da faculdade chegavam a arrancar os cartazes de concursos com medo de eu participar. As pessoas não sabem lidar com o fato de você estar em evidência", avalia.

Belas contadoras de histórias

Os olhos claros, a simpatia e o sorriso bonito não são as maiores qualidades da escritora paulista e moradora em Uberlândia há mais de 10 anos, Lucelena Maia. O carisma é uma das características marcantes da autora de dois romances e co-autora de uma publicação de poesias, que, entre outras circunstâncias, viveu recentemente uma história que a aborreceu. "Ao me apresentar para o público, no lançamento do primeiro romance, a apresentadora disse que eu não era mais uma mulher bonita e elegante e estava ali para arregaçar as mangas e trabalhar. Isso me incomodou", lembra.

A escritora Thalita Rebouças que o diga. "Não compro seu livro de jeito algum. Bonita do jeito que você é duvido que escreva bem. Deus não dá tanta qualidade para uma única pessoa." Foi a declaração que ela ouviu de um pai, que se recusou a adquirir para a filha o livro "Tudo por um Namorado" (Editora Rocco), seu quinto título, durante o dia de autógrafos. Em seu site, a carioca - morena de olhos verdes e corpão - cansou de ler comentários de mau gosto. Como o de um fulano que deixou o seguinte recado: "Me recuso a ler seus livros. Só quero saber de você nua na 'Playboy'".

Todos enumeram as vantagens de ser bela. Mas existe o outro lado da moeda. Mulheres incrivelmente bonitas sofrem preconceito, descrédito, inveja e assédio. Para derrubar a máxima "bonita e burra", muitas precisam provar - árdua e constantemente - que são inteligentes, profissionais sérias e capazes.

"Há quem pense que o destino de uma mulher bonita não pode ser outro, além da carreira de modelo", vocifera Thalita, que escreve romances juvenis voltados para questões da adolescência. O seu livro "Fala Sério, Mãe", também da Editora Rocco, entrou para a lista dos mais vendidos. "Já cheguei a chorar de raiva, mas estou aprendendo a ignorar. A beleza não ajudou em nada na minha profissão. Batalhei muito para chegar onde estou."

Bonitas também choram

As bonitas também choram. E sofrem. A futura médica Adriana Schwartz, de 23 anos, não tem boas recordações de sua adolescência. Para ela, o colegial foi sinônimo de "inferno". A sua vida era motivo de conversa, queriam saber de tudo o que fazia, o que vestia. Teve até aposta - de R$ 100,00 - entre os meninos para ver quem ficava com ela. Felizmente, Adriana ficou sabendo antes de cair na armadilha de virar um troféu. Mas nem por isso deixou de ser vítima de outras.

"Quebrei muito a cara com amigas", confessa. "Confidenciava minhas coisas e contavam para outras pessoas, como se fossem um segredo valioso. A maioria se aproxima de mim com algum interesse. É desgastante. Tenho de ficar sempre alerta discreta ao máximo para não chamar mais atenção e medir as palavras para nada soar arrogante."

É uma missão impossível Adriana não se destacar. Além de ser deslumbrante, é inteligente. Afinal, não é qualquer um que passa no vestibular de Medicina para a Faculdade da Santa Casa. A união dessas duas qualidades, no entanto, ainda a coloca em situações desagradáveis. Conforme conta, essa é uma área em que há uma competição brutal e machista. Neste ambiente quase hostil, ela pisa em ovos. Tem de provar que só porque é linda, não é chata e que é legal, humilde, inteligente, capaz e uma mulher de respeito. Assim, nessa ordem.

Na Medicina, beleza só atrapalha, segundo Adriana. Imagine esse mulherão - de olhos azuis, rosto de boneca, cabelos impecáveis e corpão - atendendo no pronto-socorro? "Na correria do plantão, madrugada adentro, sempre tem um bêbado, alguém assediando. É muito chato." Para se ter uma idéia, ela estava suturando um corte na cabeça de um homem, quando ele, todo ensangüentado, disse: "Você é uma doutora muito gostosa". Adriana teve de ameaçá-lo e ainda chamou o segurança para ficar ao seu lado.

A relações públicas Thais Tombolato (foto da capa), de 23 anos, admite que a sua beleza estonteante já lhe abriu portas, sim. Mas ela também sabe da importância de se preservar, já que muita gente acha que "ser bonita é sinônimo de ser burra". "Num primeiro encontro com clientes, percebo que causo um certo impacto", revela a garota, meio sem-graça. "Procuro manter uma postura mais reservada e me preocupo em não dar abertura para cantadas e gracinhas."

Na defensiva

Para se preservar, ela acaba "subindo nas tamancas", assumindo uma postura de inatingível. Já teve amigo que lhe confessou que essa sua imagem assusta tanto que dá "medo de levar um soco ao se aproximar dela". A loira também reclama de problemas amorosos. Com exceção do atual, todos os outros namoros foram regados ao ciúme doentio. "É a primeira vez que tenho um namorado tranqüilo, até porque ele também é bonito e sabe o que é isso."

Ah... as mulheres! Thais sempre ficou na defensiva com elas e vice-versa. "Elas pensam sempre que sou um nojo, mesmo sem me conhecerem, porque passo essa imagem de metida por ser bonita. No colégio, era paparicada pelos meninos e odiada pelas meninas, que queriam até cortar meus cabelos. Na adolescência, tive a fase de me esconder em roupas folgadas. Era roqueira e vestia camisetas enormes das minhas bandas preferidas. Mas, à medida que fui crescendo, aprendi a tirar partido do meu visual."

Suar a camisa

Parece surreal que mulheres tão lindas passem por tais privações. As modelos são ainda mais estigmatizadas. Quando Mariele Capssa, de 28 anos, resolveu deixar as passarelas para se tornar estilista, sentiu o preconceito na pele. Aliás, a bela gaúcha sempre soube que a profissão seria passageira. Só não imaginou que encontraria tamanha dificuldade para provar seu talento.

Depois de concluir vários cursos de especialização, ela resolveu virar a mesa definitivamente. Arrumou emprego como estilista em uma marca de roupas masculinas. "Tive de provar na prática que era competente, mostrando resultado. Era sempre a primeira a chegar ao trabalho e a última a sair. Toda a dificuldade que encontrava só me dava ainda mais força para vencer."

Assim, suando a camisa, Mariele deixou de ser assistente e foi promovida a coordenadora, após um ano de labuta. Até que ela cresceu tanto profissionalmente que decidiu trabalhar com quem admira: o badalado estilista Reinaldo Lourenço. Hoje, ela é sua assistente e está feliz da vida. "Acho que beleza até pode facilitar alguma coisa, mas não se sustenta sozinha se a pessoa não for competente e não tiver conteúdo", ressalta.

Talento, respeito e conteúdo permearam a brilhante carreira da atriz Tônia Carrero. Sua beleza virou uma aliada, não o foco de sua profissão. E ela foi enfática ao falar do assunto. Para Tônia, só há um lado difícil de ser bela - ou melhor, muito bela: "É quando se envelhece". Pelo jeito, Tônia descobriu algum elixir... Aos 83 anos, ainda consegue ser deslumbrante.

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