
O jovem tenor brasileiro Thiago Arancam foi notícia no mês de janeiro ao representar, em São Francisco, Califórnia, a ópera “Cyrano de Bergerac” ao lado de Plácido Domingos, de volta ao “San Francisco Opera” após dez anos de ausência. O consagrado tenor espanhol encarnou o célebre poeta-espadachim de Edmond Rostand aos 70 anos de idade, numa demonstração de vigor e panache, no espetáculo liderado pelo aclamado maestro francês Patrick Fournillier e dirigido por Petrika Ionesco. O brasileiro deu vida e voz a Cristiano de Neuvillete, um dos lados do famoso triângulo amoroso da história.
“Cyrano de Bergerac” é uma peça teatral escrita pelo dramaturgo francês Edmond Rostand em 1897, cujo enredo gira em torno das peripécias amorosas de Cyrano de Bergerac, poeta e soldado francês do século XVII, que ama sua prima Roxana, mas não declara esse sentimento por um único e imenso detalhe: seu enorme nariz. Já Roxana se apaixona por Cristiano, belo e formoso, mas que não possui nenhum talento com as palavras. Desse modo, Cyrano propõe a Cristiano que conquistem Roxana juntos, um com a aparência, o outro com a poesia, o que gera inúmeras situações que vão do humor farsesco à sublimação de sentimentos românticos.
Apesar do sucesso mundial conquistado desde sua estréia, “Cyrano de Bergerac” foi representado poucas vezes no Brasil, com destaque para a produção da Companhia Estável de Repertório na cidade de São Paulo em 1985, espetáculo dirigido por Flávio Rangel e que trazia Antonio Fagundes no papel principal.
O fato de um tenor brasileiro encarnar um personagem tão significativo em um espetáculo de grande repercussão mundial, contracenando com uma lenda como Plácido Domingos, nos chama a atenção para o pouco, ou praticamente nenhum, espaço que o gênero ópera possui no panorama das artes no Brasil. Basta recordar que um dos nossos compositores mais ilustres, Carlos Gomes, estreou muitas de suas composições na Itália, em italiano, embora várias delas tivessem temáticas tipicamente brasileiras.
Talvez seja muita pretensão querer que um espetáculo dessa envergadura viesse a ser representado no Brasil. Entretanto, se nosso país tivesse uma tradição tanto de produções quanto de público nesse gênero, possivelmente poderíamos ver um talento brasileiro contracenando com um dos maiores tenores de todos os tempos em um dos mais aclamados clássicos da dramaturgia mundial bem de pertinho.
André Luis Bertelli Duarte
Mestrando em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (Nehac)