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Musicais







27-01-2011


O bom humor de Dicró



Carlos Roberto de Oliveira, o Dicró, nasceu em 1946 e é, ao lado de Bezerra da Silva, Germano Mathias, Moreira da Silva e Osmar do Breque, a grande referência do chamado samba satírico, que relata com extremo bom humor a realidade do subúrbio carioca. Passou a infância na favela do bairro do Jacutinga, em Mesquita, cidade da Baixada Fluminense. Filho de uma mãe de Santo renomada na região e organizadora de festas no próprio terreiro nas quais participavam Elza Soares, Sérgio Fonseca, Roberto Silva, Romildo, Edson Show, Elias do Parque, Wilsinho Saravá, Pongá e Bebeto di São João, entre outros, foi assim que Dicró conheceu seus ídolos do samba tornando-se cantor e compositor. No carnaval de rua, pertenceu à ala de compositores da Beija-Flor de Nilópolis e da Grande Rio, de Caxias.
O apelido Dicró lhe foi dado por acaso: segundo o poeta Sérgio Fonseca, na ocasião em que integrava a ala de compositores de um bloco carnavalesco de Nilópolis, os sambas de sua autoria eram impressos com as iniciais de seu nome CRO, pois era homônimo do jogador do Vasco da Gama, Roberto Dinamite, muito famoso na época. Com o tempo e os erros tipográficos, o “De CRO” mudou para “Di CRO” e, posteriormente, Dicró.
No ano de 1991 estreou como teatrólogo com o texto “O Dia Em Que Eu Morri”. No governo de Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, foi o principal incentivador da obra do Piscinão de Ramos, na praia de Ramos, subúrbio do Rio de Janeiro. Para o piscinão compôs diversas músicas, sendo considerado o “Prefeito do Piscinão”, onde mantém um trailer com seu nome, ponto de encontro de sambistas e novos grupos de pagode. Em 1995, gravou ao lado de Bezerra da Silva e Moreira da Silva, a obra prima deste segmento do samba que tão bem representam: “Os Três Malandros In Concert”. O trabalho traz pérolas do samba criativo e bem humorado de compositores do morro como: Wilsinho Medeiros, Ribeiro Cunha, Julinho, Claudinho Inspiração, além de algumas faixas assinadas por Moreira da Silva e Dicró.
Dicró sempre privilegiou em suas músicas temas cotidianos e populares, como a chatice da sogra, o ladrão que entra na casa de pobre, o cara que coloca a nêga no seguro, o jogo de futebol, a praia de ramos etc. Dicró é o humor mais puro do samba. É de um estilo diferente e com poucos seguidores na diretriz das composições. Tem atualmente um quadro fixo no programa "Fantástico" da rede Globo onde temas do cotidiano são tratados com sua picante visão humorística. Dicró é samba da melhor qualidade, com certeza. Salve a cultura popular!




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20-01-2011


Boa noite, dia.



Um cochilo pode ser pleno de revelações. Será o tal do estado alfa? O homem cochilando, semi-sonolento, pode contar com a liberdade da razão adormecida, ao mesmo tempo em que é capaz de reconstituir, tão logo desperte, os trajetos de sua mente livre: esteve suficientemente acordado para que a memória do imaginado se preserve.

Sim, é no cochilo que a gente se entende. Cochilo é coisa séria, perguntem a qualquer espanhol. Já ouviram música cochilando? A audição semi-sonolenta talvez seja uma das mais privilegiadas. Que “eu” ouve essa música?

Coisa boa é puxar um cochilo e de repente pintar um disco. O disco é sempre uma janela que se abre. Dia desses, janela que se abriu aqui na cabana foi a do disco “Refazenda”, do Gilberto Gil. Outra: “Gal canta Caymmi”. O próprio Caymmi, tocando violão e cantando.

Cada janela descortinando uma paisagem diferente. É proibido fumar. Opa, alguém ligou uma televisão na cabana, janela que se abriu foi a do domingão do Faustão. Pensamento que me ocorreu: a voz do ser ruim. Que demonstra a voz do Gilberto Gil que recomeçou a cantar agora? Ei, acho que peguei no sono, porque todas as músicas silenciaram.

Alguém aparece faceira, janela que se abriu transborda perfumes e imagens, lembro da música mais bonita da Adriana Calcanhoto: “transito entre janelas”. Os nossos sonhos podem ter feição de filme americano. Que diretor dirige esse filme dilacerante? Que coreógrafo? Porque figura esplendidamente a musa.





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13-01-2011


Acyr Marques: o compositor



Acyr Marques da Cruz é, sem dúvida, um dos maiores compositores de samba do Brasil. Irmão de Arlindo Cruz, outra pérola da mais brasileira das músicas, Acyr Marques é autor de grandes sucessos como: “Casal Sem Vergonha”, gravado por Zeca Pagodinho em 1985, “Meu Negócio é Pagodear”, interpretada inicialmente por Carlos Sapato, mas reconhecida na voz do irmão Arlindo Cruz com Sombrinha, dois ex-integrantes do Grupo Fundo de Quintal. Almir Guineto gravou “Partido alto mora no meu coração”, Marquinhos Satã interpretou “Pura Semente” e Leci Brandão no disco "Dignidade", incluiu "Fogueira de Uma Paixão", música de Acyr Marques em parceria com Luiz Carlos da Vila e Arlindo Cruz.

Em 1999, Jorge Aragão gravou o disco "Ao Vivo”. No CD foi incluída "Coisa de Pele", parceria de ambos e um dos grandes sucessos do cantor, que com esse disco vendeu mais de 500 mil cópias. Ainda neste ano, Zeca Pagodinho no seu "Ao Vivo", interpretou "Saudade Louca" esta com o próprio Zeca e Arlindo Cruz e "Dor de Amor", com Franco e Arlindo Cruz. No CD "Departamento do Pagode", Luizinho SP incluiu "Me Deixa", parceria de Acyr Marques com Serginho Procópio e Marquinhos PQD.

Pela versatilidade e capacidade de criar e de cantar o samba, Acyr Marques é chamado de “o Mestre” pelos mais chegados. Foi ele quem iniciou o irmão Arlindo Cruz nas aulas de violão lá pelo ano de1970. Foi também ele o grande incentivador e auxiliar de Arlindo Cruz no chamado “Pagode do Arlindo”, em Casca Dura. Ali frequentaram grandes figuras do samba do Rio de Janeiro como: Denise Lima, Ronaldinho do Fundo de Quintal, Marquinho PQD, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Pedrinho da Cuíca, Marcelinho Moreira, Torrão do reco-reco, Jorge Aragão, Beto Sem Braço, Zé Roberto, Renatinho Partideiro, Macalé entre outros.

O autor do samba “Coisa de Pele”, gravado por Jorge Aragão e posteriormente por Beth Carvalho é um cidadão pacato e observador. Neste samba ele dá a exata medida da importância que o samba tem na vida do sambista: “arte popular do nosso chão, é o povo que produz o show e assina a direção”. Acyr Marques, com toda sua obra é, para o grande público, um quase anônimo do samba, mas é poesia latente, pronta para ser despejada onde quer que haja um cavaco, um violão, um pandeiro e uma boa roda de amigos. Viva o samba e seus poetas desconhecidos, salve a cultura popular!





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06-01-2011


A primeira vez, de novo



Aqui na cabana em que estamos hospedados, no meio do mato diante do litoral norte do estado de São Paulo, estamos desprovidos de sistema de som. É verdade que temos o celular do Alê, uma caixinha de abelha vociferando sepulturas e panteras, que ele coloca a seu lado, quando quer adormecer – e adormece como uma criança, um sorriso de estátua: como é perturbador ver um amigo dormindo.

Temos também as caixas de som desse heróico computador, caixas que nem ouso ligar, porque entre o silêncio e o som pela metade, preferimos o silêncio. Digo som pela metade e não estou exagerando. Falta, a essas caixas de som do computador, muito do que compõe um som completo. Os graves, principalmente. Na mochila - não posso correr o risco de ficar sem música - estão os fones de ouvido, mas fone de ouvido é momento de solidão, coisa para quando se está sozinho.

Então esse passeio vai se constituindo como um tempo sem ouvir música. Se, por um lado, essa greve causa um certo desconforto aos ouvidos mais viciados, por outro traz os benefícios compensatórios: sei que quando for ouvir música de novo, daquele jeito devoto, sentado diante das caixas de som, ouvindo música como se estivesse lendo o livro, terá sido como se estivesse ouvindo música pela primeira vez.

A primeira vez é sempre a melhor de todas, alguém concorda? O primeiro amor. A primeira vez que se vê o mar. O primeiro isso, o primeiro aquilo. O melhor é que a primeira vez está sempre ao alcance. Jamais prescreve. A primeira vez das coisas é sempre uma possibilidade aberta, atualizável. A única primeira vez irrepetível é o acendimento do palito de fósforo. No mais, todas as primeiras vezes podem acontecer de novo. Por mais que isso possa soar estranho, não será equivocada a afirmação: a vida só é possível porque a primeira vez pode se repetir.

Quem aqui se acostumou com a televisão? Falo por mim. Ainda hoje, quando faz-se a luz na piscina de eletrons, que vem a ser a TV, quase caio para trás. Com o cinema, o mesmo. Lágrimas na sala de cinema. Por que chora o espectador? Pelo filme? Mais que pelo filme, o espectador chora pelo cinema. A eterna surpresa do cinema. É, amigos, pode ser verdade que a arte seja mesmo o território dos deslumbramentos, a hora e a vez da Primeira Vez. Isso talvez explique nossa adesão a ela. Sim, o deslumbramento é um feitiço embriagante. Cultivá-lo, ora pois.





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